Minha casa, Minha cara

Assim é a moradia para estudantes em uma escola na zona rural do Tocantins, uma obra em que eficiência e beleza são aliadas. Conheça essa bela história!

Cristiane Teixeira

Por: Cristiane Teixeira Fotos: Leonardo Finotti

Sem tocar o chão, os esguios pilares de madeira laminada colada tomaram seu lugar acima dos alicerces. Conectados às sapatas de concreto por uma peça metálica cheia de funções: ela mantém a madeira longe da umidade do solo e ainda faz o ajuste fino na altura de cada pilar.

Sobre a estrutura pousou o telhado, erguendo-se suavemente em direção ao rio Javaés. Com a cobertura pronta, protegidos do sol forte nessa região entre o Cerrado, o Pantanal e a Amazônia, os operários então ergueram as paredes. Paredes feitas da terra em que pisavam a poucos metros de distância da construção. Terra misturada a cimento e moldada em tijolos de três formatos, produzidos no canteiro a uma velocidade de 4 mil unidades por dia.

Era preciso agilidade para concluir em 14 meses uma obra de mais de 23 mil m², divididos em duas vilas para 540 alunos residentes na escola da Fazenda Canuanã, em Formoso do Araguaia, Tocantins. O processo todo, porém, durou quase três anos e envolveu muitas cabeças e mãos.

À frente do projeto estiveram dois escritórios de São Paulo, o Rosenbaum, do designer Marcelo Rosenbaum e da arquiteta Adriana Benguela, e o Aleph Zero, dos arquitetos Gustavo Utrabo e Pedro Duschenes. Em viagens à região distante 320 km de Palmas, a capital do estado, os profissionais conheceram casas das famílias de alguns alunos, comunidades caboclas e aldeias indígenas, aprendendo sobre o jeito de construir e viver local.

A essas visitas se somaram os encontros e dinâmicas com os estudantes, que indicaram como eles imaginavam seus espaços de moradia. Ao contrário dos dormitórios para 40 crianças mantidos pela escola havia quatro décadas, os alunos sonhavam com quartos menores e alguma dose de privacidade. Também pediram que fossem mais ventilados e menos sujeitos ao calor – a temperatura média anual supera os 27 ºC em Formoso do Araguaia.

Tais demandas encontraram como resposta o desenho de duas vilas – uma para meninas e outra para meninos – que têm no térreo os quartos com três beliches cada um e, no piso de cima, salas de leitura, de TV, redários, mesas de pingue-pongue e espaços de uso livre. O centro de cada vila é ocupado por um pátio com espelho-d’água, bancos e jardins.

“O processo todo envolveu ouvir muito, propor e ensinar”, diz Pedro Duschenes. E explica o porquê do ensinar: “Os estudantes e a população em geral achavam que as técnicas e os materiais de construção locais representavam tecnologias ultrapassadas. Queriam o que veem na TV. E nós tivemos de mostrar que não é bem assim, que existe sabedoria e eficiência na arquitetura tradicional indígena”.

Tanto existe que os blocos de concreto, as estruturas metálicas e os panos de vidro formatadores das metrópoles brasileiras não tiveram vez neste projeto. Em seu lugar, entraram os tijolos à base de terra – material que naturalmente isola o calor. E cimento, que não são queimados e, consequentemente, não emitem CO². Tijolos que também pouparam a queima de diesel no transporte, pois foram produzidos localmente.

A madeira laminada colada precisou viajar a partir de São Paulo. Mas a seu favor pesam a sua matéria-prima – eucalipto de reflorestamento certificado – e a rapidez que traz à obra, por ser pré-fabricada. Prontos também chegaram ao canteiro os painéis de madeira e cimento usados no piso e as telhas metálicas do tipo sanduíche, que atenuam calor e ruídos.  

Madeira e tijolos dão feição às construções e, sozinhos, respondem por diferentes texturas e tramas. A madeira da estrutura, replicada em guarda-corpos, varandas e brises, parece estabelecer uma melodia, enquanto os tijolos ora se unem em paredes maciças, ora desenham paredes vazadas de variados padrões.

E, com tais características, o projeto da escola de Canuanã vem atraindo os olhares do mundo e colecionando importantes prêmios, como o ArchDaily Building of the Year e o American Architecture Prize 2017. Pode ser, ainda, que inspire alguns dos adolescentes que ali vivem a se tornarem arquitetos e a espalhar pelo país sementes da arquitetura de qualidade.

Da arquitetura para a decoração

É curioso notar que um projeto de dimensões tão grandes pode se exprimir igualmente bem nos detalhes. E foram eles que me inspiraram na seleção de peças da Meu Móvel de Madeira (MMM) e da Oppa, uma seleção com os tons quentes da madeira e do barro e também com as formas em que eles se apresentam nas vilas de Canuanã. Ah, outro detalhe usado como referência são as decorações das portas dos quartos, feitas de palha e pintadas em diferentes desenhos pelos índios.

1. Cama Pará, da Oppa. Os designers pensaram no padrão formado pelos códigos de barra para desenhar este modelo de pinus e MDF.

2. Cabideiro Araucária, da MMM. Esbelto e com quatro ganchos, este modelo de pinus e metal deve ser fixado na parede.

3. Estante Adega, da Oppa. O corpo de MDF laqueado de preto contém prateleiras de pinus que podem acolher tanto garrafas de vinho quanto livros. Mede 1,20 x 0,51 m.

4. Banco Traço, da MMM. Ele é feito de eucalipto e pode ser usado em áreas externas.

5. Almofada Labirinto, da Oppa. Mede 20 x 38 cm e leva capa de gabardine com zíper.

6. Rack Trapézio, da MMM. Pés finos erguem do chão as duas prateleiras deste aparador de MDF e pinus.

 

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