Minha casa, Minha cara

As paredes de taipa de pilão são parte do charme dessa morada erguida no México

Cristiane Teixeira

Por: Cristiane Teixeira Fotos: Yoshihiro Koitani | Taller Tlaiye

A Quinta Gaby, nome dado a esta obra de 545 m² erguida em 2017 em Atlixco, na região de Puebla, é toda ela uma homenagem à arquitetura vernacular mexicana. Além das paredes tipicamente feitas de terra batida, a casa concebida pelos arquitetos David Tlaiye e Andrea Martínez, do escritório Taller Tlaiye, se configura ao redor de um pátio central. Possivelmente o elemento mais característico na história das habitações do México. “É um espaço ao ar livre, que distribui, comunica e conecta os ambientes da casa, agindo como o núcleo de todas as atividades, como costumava ser nas fazendas mexicanas, onde o interior e exterior têm um relacionamento íntimo”, explicam os autores em um texto sobre o projeto.

Ao mesmo tempo em que reverenciam a tradição, David e Andrea homenageiam um dos mais importantes nomes da arquitetura mexicana e mundial do século 20, Luis Barragán, conhecido pelas cores vivas de seus projetos. Na Quinta Gaby, o rosa alegre do mestre tinge a porta de entrada, que dá acesso ao pátio com árvore e espelho-d’água. Os espaços interiores são amplos e integrados, banhados de luz e ventilação naturais.

Por que construir com terra?

Não foi só o resgate histórico que motivou a escolha dos arquitetos pela terra, mas também o conforto ambiental e a beleza de acabamento propiciados por ela. Por sua própria composição, paredes de taipa são termicamente isoladas, mantêm a umidade do ar constante e ainda fazem bom isolamento acústico, por serem grossas e densas. “Ela fornece possibilidades criativas e de design ilimitadas do ponto de vista estético”, afirmam David e Andrea a respeito da terra como material de obra. “A beleza natural da taipa transmite uma grande honestidade ao expor a forma irregular de suas camadas de diferentes cores e texturas que, com seus defeitos e peculiaridades, acrescentam beleza e caráter à casa.

Existe, também, uma terceira razão para a casa ser como é, essa ligada à sustentabilidade: a matéria-prima é reciclável. Ou seja, as paredes podem ser demolidas, misturadas a água e dar origem a novas construções.

Como arquitetos, queríamos romper com o preconceito limitante dos materiais que deveriam ser utilizados para a construção de um lar decente, reavaliando um sistema construtivo tradicional e sua articulação funcional com as necessidades e tecnologias atuais”, contam.

Como se faz a taipa de pilão

O nome é sinônimo para terra batida, técnica milenar de construção já foi – e ainda é, principalmente na África e na Ásia – usada em várias partes do mundo, incluindo o Brasil. O solo úmido, extraído do próprio lote ou de algum lugar próximo, vai dentro de formas de madeira e então é batido com pilões ou máquinas. A compactação é tamanha que o volume do material chega reduzir-se pela metade – daí a sua resistência. O desenho suave que se revela na superfície depois que se desenforma a estrutura resulta das marcas das formas e da própria composição do solo.  

Como as paredes precisam se manter longe da umidade, são erguidas sobre uma base contínua de concreto, a chamada sapata corrida, que desenha um rodapé de cerca de 30 cm. O concreto também é necessário para travar as estruturas no alto, formando uma cinta de amarração sobre a qual é instalado o telhado. Neste projeto, piscinas, espelhos-d’água e banheiros foram cobertos de cimento branco colorido com pigmentos da casca de uma árvore.

A Quinta Gaby leva o material, nossa terra, como ponto de partida para uma reinterpretação da arquitetura mexicana, aproveitando a relação significativa entre a terra batida e nossas culturas pré-hispânicas e seus benefícios estéticos e sustentáveis”, finalizam os arquitetos.

Da arquitetura para a decoração

O jeito de construir mais natural, com terra, me fez pensar em móveis de madeira maciça, bem menos frequentes hoje do que já foram no passado, quando ainda não se pensava na necessidade de preservação das matas. Os modelos que integram esta seleção são todos de espécies de reflorestamento – exceto por uma luminária, que dá nova função a uma madeira usada.

  1. Buffet Demolição, da MMM, de pinus
  2. Biombo Ripas, da Oppa, feito de eucalipto
  3. Banco 3 lugares Suprema, da MMM, de eucalipto
  4. Luminária de mesa Santa Fé, da Oppa, com base de madeira de dormente e cúpula de algodão
  5. Mesa quadrada Export, da MMM, de eucalipto
  6. Suporte para bicicleta Pedalo, da MMM, feito de eucalipto
  7. Cadeira Veraneio, com braços, da Oppa, feita de eucalipto

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